Análise elaborada por Dr. Wu Tou Kwang
A acupuntura é uma técnica terapêutica de
origem chinesa, sendo praticada há mais de 3.000 anos,
consistindo na estimulação de pontos do corpo humano
através de instrumentos apropriados, com a finalidade de
promover e restaurar as funções dos tecidos e órgãos.
Pode ser indicada para pessoas doentes como tratamento, ou para
pessoas normais, combater o stress e manter a saúde.
A acupuntura é uma técnica simples e segura, foi
praticada durante milênios com sucesso, sem necessitar dos
conhecimentos médicos modernos desenvolvidos a partir do
século XX.
A acupuntura pode ser praticada com e sem agulhas. Existem muitas
técnicas modernas não invasivas como ímãs,
laser, eletroestimulação, esparadrapo com formatos
especiais, pastilhas de silício, luzes coloridas, diapasões,
todas de grande eficácia, substituindo as agulhadas.
As agulhas da acupuntura entram apenas nas camadas superficiais
do corpo, no máximo, até a musculatura, são
muito menos perigosas do que as injeções. Para evitar
infecções, atualmente, os acupunturistas trabalham
com agulhas descartáveis ou individuais. E todos estão
cientes das contra-indicações e dos perigos das
agulhas, isto faz parte da introdução em qualquer
curso sério de acupuntura.
A profundidade das agulhadas depende da técnica empregada.
Na Acupuntura Neurofisiológica, preferida pelos chineses
e pelos médicos brasileiros, as agulhas precisam ser colocadas
até provocar impulsos nervosos intensos, por isso, entram
alguns centímetros. Na Acupuntura Energética, preferência
de japoneses, coreanos e profissionais de saúde brasileiros,
as agulhas entram apenas alguns milímetros.
Quanto às complicações da acupuntura, a
incidência é muito baixa em relação
aos erros médicos. Segundo um dossiê entregue aos
senadores da CAS em 1995 pelos médicos da SMBA (Sociedade
Médica Brasileira de Acupuntura), com base em 5.029 referências
sobre acupuntura publicadas em periódicos indexados em
base de dados internacionais da MEDLINE e LILACS compreendendo
o período de 1966 a 1994, ocorreram 139 referências
acerca de efeitos adversos relacionados à prática
de acupuntura, e 7 óbitos.
Foram apenas 139 complicações em 28 anos no planeta
Terra, incidência muito baixa em comparação
aos erros médicos. Além disso, o NCCA (Comitê
Nacional de acupuntura dos EUA) descobriu que a maior parte das
complicações foram provocadas por médicos
acupunturistas. Os óbitos ocorreram em pacientes com doenças
múltiplas e patologias terminais, portanto, acupuntura
não tinha nenhuma relação com os falecimentos.
No Brasil, o único caso documentado de perfuração
de pulmão foi provocado por um médico no Hospital
São Paulo, da UNIFESP (Rev. Paulista de acupuntura, vol
2: 40-43).
Na avaliação dos pacientes, os acupunturistas fazem
um diagnóstico energético para indicar pontos e
estímulos. É uma avaliação muito diferente
do diagnóstico nosológico médico. Entretanto,
durante milhares de anos, os acupunturistas têm obtido sucesso
terapêutico indiscutível, tanto que conseguiram a
adesão dos médicos. Apesar disso, os sindicatos
de acupuntura e a FENAC (Federação Nacional de acupuntura)
recomendam que é conveniente aos doentes trazerem tais
diagnósticos nosológicos. O Código de Ética
dos Acupunturistas recomenda tratar doentes já diagnosticados,
ou encaminhar os casos suspeitos aos médicos. É
importante haver integração entre os acupunturistas
e os médicos.
Na manutenção da saúde e prevenção
de doenças, as pessoas não apresentam quadro mórbido,
portanto, o diagnóstico energético já é
suficiente para conduzir a restauração funcional
energética.
A acupuntura é eficiente e econômica. Uma das razões
do grande crescimento econômico da China é gastar
pouco na assistência à saúde, pois por tradição,
o povo aceita muito bem a fitoterapia e a acupuntura, e não
fica exigindo tanto os remédios químicos, muito
mais dispendiosos.
No Brasil, em 1999, existiam 20.000 acupunturistas e 5.000 médicos
especializados, segundo informações do famoso médico
acupunturista Dr. Ysao Yamamura, chefe da disciplina de acupuntura
do Hospital São Paulo da UNIFESP (Universidade Federal
de São Paulo). (Superinteressante, fev/99).
95% dos acupunturistas têm formação superior
na área de saúde. Os Conselhos Federais de Fisioterapia,
de Biomedicina e da Enfermagem já consideraram a acupuntura
especialidade uns 10 anos antes do CFM. Posteriormente, em 2000,
o CFF (Farmácia); em 2002, o CFFono (Fonoaudiologia) e
o CFP (Psicologia), em 2003, CONFEF (Educação Física),
reconheceram a acupuntura como método útil e aplicável
para seus profissionais. Todos estes profissionais tiveram todas
as disciplinas básicas da área da saúde e
conhecem bem Anatomia e Fisiologia, e aprenderam acupuntura em
cursos de pós-graduação ou de especialização,
com carga horária mínima de 1.200 horas. Entretanto,
o Código de Ética dos Acupunturistas recomenda aos
profissionais da área trabalharem dentro de seus próprios
limites, e das competências legais de cada um.
Os 5% restantes são os técnicos de acupuntura formados
em cursos técnicos com autorização e reconhecimento
das Secretarias de Estado da Educação de SP, RJ,
MG, SC. São curso longos, de 1.440 horas, com 2 a 3 anos
de duração, contendo todas as disciplinas básicas
(Anatomia, Fisiologia, Microbiologia, Parasitologia e Epidemiologia).
No Brasil, por falta de regulamentação, o mercado
dos cursos de acupuntura para profissionais de saúde está
pulverizado, existem mais de 100. Enquanto que os cursos de acupuntura
para médicos são monopólio de duas entidades,
a SMBA e a AMBA, faturam muito. Médicos formados em outros
cursos não conseguem nem título de especialista,
nem conseguem credenciamento nas UNIMEDs.
Via de regra, a grande maioria das atividades não necessita
de regulamentação legal ou de conselhos para a sua
fiscalização. Entretanto, quando se requer o domínio
de conhecimentos técnicos e científicos avançados,
que não podem ser obtidos por meio de estágio profissional,
ou quando o desempenho de uma determinada atividade oferece riscos
elevados para a sociedade, torna-se imperiosa a exigência
de qualificação profissional.
Devido à falta de regulamentação, têm
proliferado cursos e profissionais, alguns de excelente nível,
e outros muito deficientes, colocando em risco a população.
Todos os cursos, com qualquer carga horária, com qualquer
programa, com qualquer corpo docente se equivalem. O pior é
que a ANVISA não apresenta até hoje normas de fiscalização
da acupuntura, por boicote das entidades médicas da área.
Assim, o povo está desprotegido, e os bons profissionais
acupunturistas sem respaldo legal. Isto gera muita preocupação.
O PL 480/03 vem preencher este vácuo. Apesar de tudo, é
de consenso que no Brasil se pratica acupuntura de altíssimo
padrão e o nosso país tem o maior número
de profissionais do mundo, com exceção da China.
Desde século XVIII, a acupuntura vinha sendo noticiada
na Europa. Era vista como técnica exótica de bárbaros
do Oriente. Somente em 1900, um diplomata francês, Soulié
de Morant, interessou-se realmente pela técnica e estudou-a
durante 30 anos na China. Depois de aposentar-se do serviço
diplomático, Soulié começou a difundir a
acupuntura na Europa. Sofreu muita gozação e discriminação,
e foi perseguido até por ex-alunos médicos acupunturistas.
No Brasil, a acupuntura foi trazida pelos imigrantes japoneses
há 99 anos. Nos primeiros 50 anos, era praticada pelos
imigrantes atendendo os colonos orientais. A primeira pessoa da
raça européia a praticar acupuntura foi Friedric
Spaeth, iniciando em 1953. Ele fez um curso de acupuntura na Alemanha
em 1950. Em 1958, começou a dar aula para os poucos interessados
que surgiam. Eram leigos, ex-pacientes, massagistas, dentistas,
advogado, e até um médico, Dr. Evaldo Martins Leite.
Até década de 80, os acupunturistas eram ridicularizados,
perseguidos e até presos. Somente a partir de 1972, os
médicos começaram a invadir a acupuntura, depois
da visita do presidente Richard Nixon à China quando descobriram
que cirurgias eram realizadas sob anestesia por acupuntura.
A acupuntura disseminou-se por muitos países, principalmente
naqueles de língua inglesa com presença expressiva
de imigrantes orientais. Nos EUA, a acupuntura vem sendo regulamentada
desde os anos 70, existem 40 cursos superiores de acupuntura.
Na Inglaterra e na Alemanha, para exercer acupuntura, tanto os
médicos como os profissionais de saúde precisam
passar por exames rigorosos. Na China, acupuntura faz parte dos
atendimentos básicos. Lá existem os acupunturistas,
que são chamados de médico oriental, e os profissionais
da Medicina Ocidental, que são chamados de médico
ocidental. Enfim, todos são chamados de médicos.
Prof. Friedric foi o primeiro professor de acupuntura do Brasil.
Dr. Evaldo foi o primeiro médico acupunturista. Ambos foram
professores da 1a geração de médicos acupunturistas
do país, e fundaram a ABA (Associação Brasileira
de acupuntura). Prof. Fredric viveu amargurado os últimos
anos de vida porque foi deposto da presidência da ABA pelos
ex-alunos médicos, pelo fato de não ter graduado
em Medicina Ocidental. Dr. Evaldo foi processado pelo CRM-SP pelo
exercício de acupuntura em 1972, e tem sido processado
pelo CRM-SP desde 2000 por defender a prática multiprofissional
na acupuntura, denunciado por médicos acupunturistas da
SMBA (Sociedade Médica Brasileira de acupuntura), fundada
em 1984 por seus ex-alunos médicos.
Até a década de 80, a classe médica não
aceitava a acupuntura. Em 1972, CFM (Conselho Federal de Medicina),
na Resolução Nº467/72, rejeitou acupuntura
como terapêutica médica. Em 1986, a 1.184ª reunião
plenária do CFM considerou que acupuntura não é
especialidade médica. Somente em 1995, para combater a
tramitação do PLC 67/95 no Senado, o CFM aprovou
acupuntura como especialidade e desde então vem reivindicando
o monopólio da acupuntura.
No Congresso Nacional, os projetos de lei para regulamentar o
exercício da acupuntura vinham desde 1984. O primeiro foi
o PL 3838/84, do deputado médico Mário Hato, o segundo
foi o PL 852/88, do deputado médico Salim Curiati. Estes
projetos de lei, apesar de ter sido propostos por médicos,
eram a favor da acupuntura multiprofissional.
Surgiram depois o PL 935/91 do atual deputado federal Antônio
Carlos Mendes Thame e o Nº337/91, do senador Fernando Henrique
Cardoso. Todos foram apensados no PL 383/91 do deputado Marcelino
Romano Machado, que foi aprovado pela Câmara em 1994 e encaminhado
para a CAS do Senado como PLC 67/95.
Na CAS, o senador Valmir Campelo foi o relator, fez um substitutivo
em prol da acupuntura multiprofissional, foram realizadas 1 Audiência
Pública e 2 votações bem sucedidas. Entretanto,
o senador médico Lucídio Portela requereu sua tramitação
na Comissão da Educação; em 2000, outro senador
médico, Geraldo Althoff, como relator da CE, entrou com
substitutivo a favor da classe médica. Depois da CE, o
PLC 67/95 foi parar na CCJC. Finalmente, em 2002, o PLC 67/95
foi arquivado por decurso de prazo.
Dr. Gonçalo Vecina Neto, ex-presidente da ANVISA, em 1999
destacou a importância da acupuntura multidisciplinar. Em
4/5/2006, o Ministério da Saúde, dentro da Política
Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS,
publicou a Portaria No. 971, recomendando que acupuntura deve
ser oferecida no SUS em nível multiprofissional.
Ultimamente, há crescente busca de acupuntura pelo povo
brasileiro, os poucos ambulatórios populares apresentam
longas filas de espera. A implantação da acupuntura
nos postos de saúde exige apenas a contratação
de profissionais. A regulamentação da acupuntura,
permitindo a sua prática aos médicos, profissionais
de saúde, acupunturistas e técnicos, aumentará
o número de cursos e profissionais habilitados, e possibilitará
a sua efetiva implantação por todos os Estados através
de equipes multiprofissionais. Milhões de pessoas serão
atendidas diariamente com sucesso e economia.
Este PLS nº 480/03 reinicia a discussão em torno
da regulamentação da acupuntura, tem como finalidade
proteger o povo, e possibilitar sua implantação
no SUS em nível multiprofissional para beneficiar a população
carente.